Manaus sufoca com fumaça das queimadas no sul do Amazonas

Manaus completou nesta segunda-feira (12 ) cinco dias consecutivos com a pior qualidade do ar entre as cidades brasileiras monitoradas pela plataforma internacional IQAir.

A fumaça que encobre a capital amazonense está associada à multiplicação das queimadas no estado, com destaque para os municípios do sul do Amazonas, região marcada pela expansão das atividades agropecuárias e por conflitos relacionados ao uso da terra.

O problema deixou de ser apenas uma emergência ambiental nas áreas atingidas pelo fogo. A dimensão do desastre aparece nos números: somente nos dez primeiros dias de outubro, o Amazonas registrou 1.380 focos de incêndio, contra 372 no mesmo período de 2025.

O crescimento foi de 271%, segundo dados do Painel do Fogo, do Centro Gestor e Operacional do Sistema de Proteção da Amazônia (Censipam).

O sul do Amazonas e a geografia das queimadas
Os municípios de Apuí, Lábrea, Humaitá e Manicoré estão entre os territórios que exigem atenção especial na crise das queimadas.

Localizados na região sul do Amazonas, integram uma área submetida à pressão crescente da expansão agropecuária, da abertura de pastagens, do desmatamento e da ocupação de terras.

A presença desses municípios nas áreas de ocorrência de incêndios é particularmente relevante porque a fumaça produzida no interior pode ser transportada pelos ventos e atingir localidades distantes, inclusive Manaus.

Mas, o problema não se limita ao sul do estado. Autazes, Nova Olinda do Norte, Barreirinha, Careiro da Várzea e Parintins também figuram entre os municípios com ocorrências de incêndios identificadas pelo Ibama.

A distribuição territorial dos focos demonstra que a crise se espalha por diferentes regiões do Amazonas.

Para identificar quais municípios lideram efetivamente o número de queimadas, é necessário considerar a classificação municipal mais recente do monitoramento oficial. A localização dos incêndios, isoladamente, também não permite atribuir a uma determinada cidade toda a fumaça que chega à capital.

Fogo cresce 271% em apenas dez dias
Os dados do Censipam revelam outra característica importante da crise. Dos 1.380 focos registrados entre os dias 1º e 10 de outubro, 1.186 estavam em áreas públicas, 93 em propriedades privadas e 101 em áreas cuja situação fundiária não estava definida.

O levantamento também identificou 246 focos em assentamentos federais, 116 em terras indígenas e 97 em unidades de conservação. Essas classificações territoriais podem se sobrepor e, portanto, não devem ser somadas como categorias independentes.

Os números reforçam a necessidade de investigar a origem dos incêndios, identificar responsáveis e verificar a relação entre o uso irregular do fogo, o desmatamento e a ocupação de terras.

A ocorrência em áreas públicas também coloca em discussão a capacidade de fiscalização e proteção territorial dos órgãos responsáveis.

Fumaça em Manaus expõe risco de El Niño forte na Amazônia

Na segunda-feira, a concentração de partículas finas PM2,5 chegou a 97,9 microgramas por metro cúbico, segundo a IQAir.

Esse resultado corresponde a aproximadamente 19,6 vezes o valor de referência anual de 5 microgramas por metro cúbico estabelecido pela Organização Mundial da Saúde (OMS). O índice de qualidade do ar chegou a 195 pontos durante o dia, na faixa considerada insalubre pela plataforma internacional.

O Sistema Eletrônico de Vigilância Ambiental (Selva), da Universidade do Estado do Amazonas (UEA), também registrou condições críticas.

Por volta das 18h, os sensores instalados em diferentes regiões da capital classificavam a qualidade do ar como péssima ou muito ruim. Em um dos pontos, o índice chegou a 218,1.

As partículas PM2,5 são especialmente preocupantes porque conseguem penetrar profundamente no sistema respiratório. A exposição aumenta os riscos à saúde, sobretudo entre crianças, idosos, gestantes e pessoas com doenças respiratórias ou cardiovasculares.

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