Era quase como um altar. Na parede, dois quadros cuidadosamente alinhados com duas camisas. Uma delas, tricolor, com o número 13, outra amarelinha com o número 5. As duas com o mesmo nome: Luan.
– Essas daí são de quando eu era bom – brincou o ex-volante do São Paulo quando a reportagem do Globo Esporte pediu para fotografar o espaço.
Na tarde da última sexta-feira, Luan passou quase uma hora na sala de casa concedendo sua primeira entrevista exclusiva desde que deixou o clube que ele define como “família”.
Antes do papo começar, o volante deu uma olhada no caderninho e quis saber: “E essas perguntas aí, só bomba?”
– Agora já pode falar, Luan – comentou uma pessoa que acompanhava a entrevista.
O volante sorriu e desviou o olhar. O sorriso mais amarelo que seus dentes imaculadamente brancos eram capazes de dar. Não era felicidade, muito longe disso. Luan nunca quis deixar o São Paulo, mas ali naquela cadeira pôde, finalmente, contar a sua versão da história.
– Nunca tive o poder do microfone. Algumas coisas me deixaram muito chateado. Eu fui afastado porque não tinha renovado o contrato. Tive uma conversa franca com a diretoria, Rui Costa sabe disso. Tive propostas de outros clubes, até rivais, pagando mais, mas eu não queria sair, só queria ter mais oportunidades. Começaram a sair notícias de que eu queria a titularidade e mais dinheiro. Eu me calei.
Depois de sofrer com lesões entre 2021 e 2022, Luan tinha contrato somente até o final de 2023 e deixou de ser utilizado até resolver sua renovação. Foi em maio daquele ano que o volante rejeitou ofertas de rivais e renovou até o fim de 2026.
– Tem algo que nunca falei: no mês seguinte da minha renovação, me chamaram para falar que eu não iria jogar, que iriam me emprestar. Eu tinha rejeitado propostas melhores para ficar e reforcei que não queria sair. Então, começaram a me deixar de fora, separado, no terceiro time.
– De 2023 para frente, não teve “o Luan não conseguiu voltar a ser o que ele era em 2021”. Teve mais de não darem oportunidades para que eu pudesse jogar.
Luan preferiu batalhar pelo seu espaço naquele ano, voltou a ser relacionado, fez alguns jogos e foi parte do elenco campeão da Copa do Brasil. No ano seguinte, foi novamente informado que não estava nos planos e passou a temporada emprestado ao Vitória. Em 2025, mais uma vez ele recebe a informação de que estava fora nos planos, mas se recusa a sair.
– Nunca falei sobre isso, mas foi difícil de entender. Eu não tinha renovado e eles me afastaram. Eu renovo e eles me reintegram. Um mês depois, avisam que vou ser emprestado. A partir dali, entendi que ia ser uma guerra. Não do Luan para estar bem física e mentalmente. Eu sabia que ia ser uma guerra fora de campo.
– Fiz de tudo para ficar no São Paulo. Fui chamado de mercenário e não era. Renovei por três anos e nos três quiseram me emprestar. Nos três me colocaram para treinar separado. Não o São Paulo, mas pessoas que trabalharam lá, que inclusive não estão lá mais. Não tenho mágoas, não. Fiz de coração, não me arrependo. Eu falei na minha despedida: teve vezes que preferi treinar separado do que ser emprestado para outro clube. Isso diz muito do amor que tenho pela camisa.


